Surge do nada um primor da engenharia civil, a Cidade do Povo

Surge do nada um primor da engenharia civil, a Cidade do Povo

O governo do Acre está erguendo uma cidade completa do meio do nada. Onde havia uma pastagem inútil e uma capoeira composta, sobretudo, duma melosa daninha, num raio de sete mil hectares, surge um visual deslumbrantemente urbano, de ruas, casas e logradouros públicos. O projeto se chama Cidade do Povo e tem por objetivo atacar em cheio o gargalo de todos os governos, desde que o Acre é Acre: a falta de moradia para as pessoas de baixa ou de nenhuma renda.  

Esse Eldorado nos arredores de Rio Branco é um projeto com quase meio caminho andado de 10.518 unidades habitacionais, ao redor do qual haverá infraestrutura básica de saneamento e para a garantia da vida social, como escolas, creches, postos de saúde, delegacias, mercados e praças. O endereço desta “jóia da coroa” é sem embaraços: no quilômetro cinco da BR-364, na direção da cidade de Porto Velho, pela margem direita. Para os padrões de distância da capital, bem modestos ainda, é um lugar para onde se vai a pé, diria qualquer vovó. A avenida que serve de acesso à Cidade do Povo até bem pouco tempo era pista de pouso de aeronaves particulares.

No projeto em execução da cidade modelo há particularidades, com fugas surpreendentes do trivial. As moradias ficam prontas com aquecedores de água em funcionamento, tocados a energia solar. A geringonça esquisita, esguichadas sobre os telhados, e vista de longe, é tecnologia de ponta vinda do estrangeiro. Os japoneses a criaram barata, justamente para servir as classes menos abastadas. Há outras modas da engenharia nada recorrentes, como o vigamento da cobertura, de ferro puro, além duns lotes de casas terem seus forros de concreto armado.

A rigor, o diferente e ousado dessa obra amazônica vem de seu período fetal. Tipo: donde e como arranjar dinheiro para fazer uma cidade completa, aparecida do nada, como a Fênix, num Estado que ainda engatinha economicamente. Contou a coragem do governador Tião Viana (PT), mais principalmente o prestígio dele e de sua equipe em Brasília, onde estão os cofres do nosso tesouro e a generosidade dum governo aliado. “Foi fator preponderante”, diz o deputado Astério Moreira (PEN), líder do governo na Assembleia Legislativa do Estado.

O governo Federal disponibilizou dois parceiros de fé na empreitada - Caixa Econômica e Banco do Brasil. Os dois bancos aprovaram um investimento superior a R$ 1 bilhão e ainda decidiram fazer diferente com as empresas contratadas. A estas foi dada a liberdade de criarem projetos diferentes. Ao invés dum padrão só, como nos demais conjuntos habitacionais, a Cidade do Povo terá moradias em formatos diferentes.  

A cidade do século 21 construída para o povo do Acre nos arredores de Rio Branco foi planejada para surpreender, principalmente a seus futuros moradores. As casas novas têm mordomias como banheiros de até 8 metros quadrados e janelas de vidro. E tudo é erguido sem fugir à geometria. Além do próprio governo, Caixa Econômica e Banco do Brasil não saem de dentro do canteiro de obras, cumprindo uma agenda rigorosa de fiscalização. A Secretaria de Obras Públicas mantém um escritório funcionando a uma distância mínima. Da sala do “marechal de campo” do Estado na construção, o jovem engenheiro civil Marco Antonio Otsubo Sanchez, é possível enxergar o vai-e-vem das máquinas e o frenesi da mão-de-obra rude, assim como o avançar paulatino da cidade do nada, “criada para suavizar a silhueta da capital, mas principalmente para dar dignidade a quem não teve a sorte de obter a casa própria”, costuma dizer o governador Tião Viana. Muita gente ainda nem sabe disso.